Poemaduro
O que nos espera nestas páginas é um formato eclético de poesia que não se ocupa meramente em perseguir estilos predefinidos ou regras acadêmicas. Ao contrário, considerando-se que não há como se escapar aqui de algum tipo de impacto, "esbarraremos" em um poeta livre e original, que conduz sua criação, a um só tempo, com a leve candura de um colibri, mas com o vigor e a autonomia de uma águia dos desertos. Enquanto colibri, Mailton Rangel extrai de sua mais intimista subjetividade, toda uma complexidade de conteúdo com o mínimo de movimentos ou barulho, mostrando, às vezes, com as imagens e os silêncios de poucas palavras, muito mais do que os olhares displicentes possam captar. "Eu busco um lirismo forte / Uma espada / Um devaneio / E uma tocha... / Já não me espanto mais / Com flor que desabrocha / Quero um desabrochar... de rocha!" Já a águia, revela-se pela apurada acuidade visual, capaz de enxergar seus objetivos até quando distantes e camuflados sob carapaças. Isso se associa à determinação de lançar-lhes suas garras e sacudi-los, até que dali se transpareça uma essencialidade esquecida ou petrificada. "Por mim / Não existiria uma só praça / Com nome de general / Porque praça / É lugar de criança / E general que tem nome / Ainda hoje me lembra... Matança!"
Princípio do Enigmanismo
Óleo sobre tela de Mailton Rangel
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
TANTO
Incumbiram-me, certa feita, de dissertar sobre a paz, mas eu me recusei terminantemente: não o fiz! Apenas lhes respondi, enfaticamente, que essa tão almejada condição não se pode confundir com qualquer pombinha branca, que até nos poderia encantar com a sua controversa leveza, porém, logo que se vê liberta, evade-se de pronto, tão arredia quanto alheia e aflita, a fim de se distanciar, tanto do nosso equivocado olhar quanto dessa nossa mais premente esperança!
Disse-lhes eu, ainda, que essa tão substancial escrita não se faz só com a ponta da pena em mãos mal-alfabetizadas; porque grande seria a possibilidade de se estar instituindo só mais uma inócua grafia; só mais um símbolo oco, que já nasceria desprovido de verossimilhança, porque provavelmente aflorara despido do embrião da fraternidade.
Assim, até com uma boa dose de redundância, eu lhes enfatizei que grafar a paz é ato que não se faz só, porque a idéia-cópia que se estampará no papel precisa emanar de um idealismo pré-insculpido nas mentes e nos corações de muitos e muitos pacificadores.
Propus-me apenas a mostrar a eles que um pergaminho de luz, diferentemente de um papel inadequado e comum, somente se forja pelo bom entrelaçamento das diferentes fibras da essencialidade humana, explicando-lhes, em suma, que a almejada paz nunca brotaria apenas de um texto, que apesar de aludir ao voo da perniciosa ave assustada, deixasse de se estruturar sobre o bom alicerce de atos e intenções do verdadeiro altruísmo.
Adverti-os de que, embora toda palavra seja uma semente, essa seria uma das mais difíceis de se cultivar, tendo-se em vista que ela, paradoxalmente, traduz a mais imprescindível prática para toda e qualquer existência e vida social de verdade.
Gritei-lhes, afinal, que o que ali se encontrava em pauta era um sublime ideal, que muitos estão aptos a escrever e ‘decodificar’, mas pouquíssimos o vivenciam, e, por isso, eu não escreveria absolutamente nada sobre a paz, porque toda intenção que se confina em um tosco contexto de papel comum, jamais desempenharia, na prática, papel algum para todos nós.
Mailton Rangel.
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
UNICUS
UNICUS
(Devaneio lírico de um Serventuário de Justiça)
Inconstitucionalissimamente:
Tolhido vago em Justiça amorfa,
Se sem vislumbrar em líquida certeza
O ‘fumus boni iuris’ da límpida teoria,
Deixei de crer em qualquer ‘decisum’
Que emirja das togas cruas!
Inconstitucionalissimamente...
Arando a lavra com meu sal do rosto,
Rastejo só ante a emergente cria
Do vil embargador que desengrena o ranço
De um joio que desigualmente se rega
Sempre com o jorro da minha sangria.
Inconstitucionalissimamente,
De tão subalterno, vil e diferenciado,
Isento-me dos vícios e, assim, não trago!
Porém, qual fumaça que vidro algum embaçaria,
Igualitariamente jazo viciado...
Mas nunca que me dissipo... e sequer... fumo!
Inconstitucionalissimamente,
Se fluo no vernáculo, vem-me a punição
Das mãos sob os auspícios d’altiva treva,
E assim, serei por todo sempre reles vassalo;
Destarte, o que me cabe é feno e trabalho,
Se – feito mau cavalo – eis que eu mal rumino!
Inconstitucionalissimamente,
Se o verbo tergiversa eu me desconstituo,
E à pena da juizite, judico sem ar,
Se o códex gelado é desinterpretado,
Transmudo em peixe arisco ao seco largado,
Ou frijo à hipocrisia, sem chance de nadar.
Inconstitucionalissimamente,
Esfalfo-me em sinais para o olhar errôneo,
Qual bucha de balão que já se apaga usada,
E assim, sem brilho ou verniz, eu me desfaço,
E às penas, só assumo...
E somente sumo!
(Mailton Rangel).
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segunda-feira, 18 de outubro de 2010
"A Importância do Ato de Ler"
Considerações sobre a obra “A Importância do Ato de Ler”, de Paulo Freire.
O conceito geral daquilo que se deve entender por “ler” sintetiza a condição ou o atributo que verdadeiramente liberta o ser humano, tornando-o apto a melhor viver e conviver, sendo mais feliz consigo mesmo e com o mundo em que se encontra inserido.
Porém, quando nos referimos a “conceito geral”, obviamente, não se trata de afirmar que o ato de ler tenha um significado generalizado e comum na concepção de todas as pessoas, mas sim, que a sublime semântica da expressão “leitura” abrange muito mais do que o simples ato de decodificar os símbolos gráficos constantes em um papel ou qualquer outro receptáculo de mensagens ou palavras escritas.
Queremos dizer, traduzindo o pensamento de Paulo Freire, que há vários tipos de leitura, o que também se pode traduzir como interpretação crítico-filosófica da vida e do mundo, e que todas essas formas de leitura reunidas e direcionadas para o crescimento humano traduzem o que seja, para esse mestre, verdadeiramente “ler”.
Entretanto, seja na leitura das palavras, na do mundo ou na do complexo dos mistérios da existência, somente encontrará o caminho da gradativa libertação, tornando-se apto a construir dignidade, equilíbrio e harmonia, para si e para os que o cercam, aquele que incessantemente buscar o aprofundamento daquilo que deseja entender (ler); aquele que não permanecer caído e inerte quando porventura tropeçar na caminhada; aquele, enfim, que transpuser qualquer obstáculo que se lhe apresente, por maior que seja, para aproximar-se das “verdades” ou conquistas que procura. E há que se salientar, ainda, que tal caminhada em busca da verdadeira “leitura”, não é para se empreender isolada ou individualmente; pois, é com a comunhão de forças e objetivos que as conquistas se tornam mais fáceis e agradáveis.
Talvez, o que Paulo Freire nos queira dizer com suas adoráveis palavras seja o mesmo que já dizia Platão ao homenagear seu mestre Sócrates: É imprescindível que saiamos todos da “caverna” e que enxerguemos além do muro e da sombra que dele se projeta em nossa direção. Só assim desvendaremos o segredo da sombra, porque descobriremos a fogueira do outro lado – fonte de luz que se oculta atrás do muro e que produz a sombra sobre a qual temos o infundado medo de avançar.
“Fazer história é estar presente nela, e não simplesmente nela estar representado”. (Paulo Freire).
Vemos que a verdadeira vida só pode ser conquistada através da participação. Os fatos da vida não devem nos conduzir; nós é que devemos inventá-los e conduzi-los como agentes da história que somos. Afinal, vida é participação, assim como participação é vida.
“Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso, aprendemos sempre.” (Paulo Freire)
Deparamo-nos, pois, aqui, com a ratificação simples daquilo que consideramos e transmitimos nos dois últimos parágrafos do texto maior, acima. Paulo Freire sempre usa o pronome “nós”, porque a busca por um entendimento claro e libertador dos “porquês da vida, bem como o “desvendar” dos fatos do cotidiano a ponto de uma compreensão compensadora, deve ser sempre feito em comunhão, e não isoladamente. Trata-se de uma construção de vida e liberdade para si e para todos, simultaneamente (“Só se é livre quando todos o são!” – Teilhard Chardin).
“Pensar certo significa procurar descobrir e entender o que se acha mais escondido nas coisas e nos fatos que nós observamos e analisamos.” (Paulo Freire).
Pensar certo é, antes de seguir junto, perguntar-se: “por que a ‘boiada’ segue naquela direção?”...É investigar além das primeiras aparências das coisas e das situações; é fermentar o senso crítico e evitar sempre de cair nas malhas ralas do senso comum, pois este é o mundo da sombra que produz o medo de avançar rumo à libertação, enquanto que o primeiro representa a possibilidade de encontrar a claridade de tudo.
Concluímos, portanto, que, no entendimento de Paulo Freire, educação é a habilidade progressiva de empreender todas as possíveis “leituras” da vida; é poder decodificar, tanto as letras, quanto os fatos do cotidiano. Assim, considerando-se a continuidade que deve ser dada a todas as buscas do homem, depreendemos que uma satisfatória capacidade de leitura dos signos gráficos, ou seja, uma alfabetização, que nunca deve deixar de ser contínua, é o necessário alicerce para a construção de uma vida melhor e mais digna. A leitura escrita é o pilar central na construção do senso crítico, da cidadania e da realização profissional, e quando nos referimos à continuidade é para enfatizar que: “só se aprende a ler, lendo”, pois quanto mais se lê, mais se consolida em nós a capacidade de construção pessoal em todos os níveis, porque também mais se conseguirá progredir na leitura geral que se deve fazer sobre todas as coisas, fatos e situações da vida.
Mailton Rangel
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segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Assassinato na Via Show.
Sei muito bem que o artigo abaixo, o qual publiquei na época do fato, hoje já está meio obsoleto, porém, a vontade de continuar mostrando-o - como instrumento de alerta - ainda continua nova e forte em meu íntimo. Assim, que me perdoem os imediatistas que já o leram, mas minha falta de inspiração ou de conteúdo para coisas novas neste momento me incita a "estacioná-lo", também aqui, nesta minha humilde e recôndita tribuna de opinião.
Mailton Rangel
ASSASSINATO NA VIA SHOW
“Homem de 22 anos é assassinado nesta madrugada com um tiro na nuca, dentro do seu próprio carro, no estacionamento da Via Show”.
Esta notícia, divulgada na manhã de quinta-feira, 18/09/08, por um dos “vendidos” bonecos sensacionalistas da televisão brasileira, fez com que eu me detivesse um pouco – sem trocar imediatamente o canal – diante do seu ridículo e espalhafatoso programa.
Tal apresentador, cumprindo seu papel de inconteste puxa-saco das elites, limitou-se meramente a relatar o fato, na forma acima, suavizando-o com um breve comentário, mais ou menos assim: “Eu, heimmmmmm... a coisa tá preta, meu irmão... aquela área de São João de Meriti anda muito esquisita, he, he, he...”.
No mês passado (15/08), entretanto, quando Caio Silveira de Albuquerque, de 17 anos, foi brutalmente espancado por seguranças da aludida casa de espetáculos, assim como na maioria das atrocidades que lá incidem sobre jovens pobres e/ou pretos e desconhecidos... nenhum paspalho massificador da TV se pronunciou, nem para acusar e tampouco para manifestar – como se viu agora – a calhorda atitude de tentar desviar o foco das atenções, de cima daquela empresa notoriamente relacionada com atos de violência para o elástico âmbito regional de todo o município onde se deu o fato. Afinal, assassinatos, enquanto crimes mais graves do que agressão, não poderiam deixar de ser, pelo menos, tendenciosamente aludidos pelos “grandes” e “importantes” encantadores de debilóides da mídia, não é mesmo?
Pois, se – à época – um jornalzinho de papel mostrava a foto do menino Caio cheio de hematomas no rosto, estranhamente classificando-o na matéria como “suposta vítima” dos seguranças da Via Show, agora, com muito mais substancialidade – tendo-se em vista o comprometido passado da ‘casa’ – todos os segmentos de imprensa que pelo menos aludiram ao novo fato deveriam ter a digna atitude de levantar um questionamento: Seriam, os truculentos seguranças da Via Show, os “supostos” assassinos, nesse novo e triste episódio?...
Mas isto não aconteceu, porque a cara agora suscetível ao esbofeteamento é a da poderosa Via Show, e não a de um simples adolescente boêmio.
A essa questão, porquanto, não há como se oferecer resposta sem provas, mas... por via das dúvidas, recorro aqui ao meu papel de cidadão para lembrar a todos os pais da região metropolitana do Rio de Janeiro e adjacências, que, muito mais certa do que “supostamente”, nossos filhos continuam correndo um enorme risco de morte, ou de humilhação nos eventos e nas dependências da suspeita e famigerada boate conhecida como ‘Via Show’.
Mailton Rangel
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
BUCHAS DE CANHÃO.
HAVERIA BUCHAS DE CANHÃO NO “PRÊMIO BAIXADA”?
Que me atirem suas farpas ou detritos, aqueles que o desejarem – mas o incentivo à cultura na Baixada Fluminense ainda parece se configurar como uma atividade de mentira; porque, salvo raras e gloriosas exceções, isso ainda se dá, em grande escala, em proveito próprio de alguns pseudo-fomentadores, e sob a égide de muito oportunismo e politicagem; e assim, geralmente não se promove verdadeiramente ninguém sob os critérios da ética e da imparcialidade; e, ao que parece, também se encontram muito mais hienas do que Mecenas envolvidos nessa história.
Nossa região, como se vê – prolífera em valores com vê maiúsculo – também se encontra salpicada de gente cretina sob duas facções diferenciadas: Num primeiro e mais nefasto batalhão – o dos entes que se propõem a representar a sociedade organizada – encontram-se uns desprezíveis mercenários, que só promovem eventos para angariar “royalties” e patrocínios, ou, meramente, alguns bônus de notoriedade a mais, porque esta sempre lhes abre muitas portas, assim como costuma render dividendos sócio-econômicos até para os mais medíocres. Estão aí os “Big Brother’s” que não me deixam mentir; e, por outra vertente, encontram-se, com as devidas exceções, os próprios artistas desprovidos de ética e de companheirismo solidário, que se orientam por um antropofágico instinto de competição, achando que a sua promoção e o seu sucesso artístico dependerão sempre do aniquilamento da imagem daqueles conterrâneos que produzem arte similar à sua.
Disto decorre que, na Baixada, além da ‘boca miúda’ que se faz em relação a eventos culturais, o próprio artista não compra nem divulga a arte do seu vizinho.
É como diz o meu amigo Sylvio Neto, um dos louváveis baluartes da seriedade nesse âmbito: “as pessoas só olham para o próprio umbigo”; e, por consequência, aqueles que nos procuram, enquanto artistas – especialmente se ligados a certos organismos culturais da própria região, costumam sempre trazer camuflados nos alforjes de sua vilania uma segunda intenção de usar os atributos de outrem como escada, a fim de promover-se para impostar alguma grandeza social.
Eu, a propósito, gostaria muito de entender, como exemplo, algumas recentes e/ou reiteradas atitudes do Fórum Cultural da Baixada Fluminense, um dos notórios organismos que mexe, remexe e fomenta – segundo eles próprios – as manifestações culturais na nossa depreciada terrinha.
Tomei contato com algumas pessoas desse grupo há cerca de três anos, quando me convidaram para participar, na condição de poeta, de um de seus eventos e, daí pra cá, passei também a xeretar, de vez em quando, o ‘site’ no qual eles divulgam suas atividades.
Parece que, para eles – como instituidores do “Prêmio Cultural da Baixada Fluminense”, com edição anual – existe um “pool” de artistas participantes um pouco mais “ilustres” que os outros, os quais formariam um seleto grupo fechado de consignatários de uma atenção mais especial e etc., tendo até quem diga que certos agraciados pela premiação – sempre advindos de tal grupo – já conheceriam o resultado acerca de seus nomes, antes mesmo de o evento acontecer.
Obviamente, não sou eu que faço tais afirmações, e nisso, levantar tais suspeitas poderia até parecer leviano, caso eu também não tivesse os meus próprios motivos de desconfiança. Portanto, tudo indica que tal verdade existe, embora eu apenas não saiba até onde se espraia a sua espuma contaminada.
E um outro motivo que me deixa de pé atrás com o “Fórum” se resume no fato de que, a cada evento organizado por eles, eu sempre me deparo com editais desprovidos de clareza e objetividade, onde muitos critérios deixam de ser esclarecidos e o próprio interessado é quem deve promover a si próprio, rasgando-se loas e até “inventando” atributos pessoais próprios, se assim quiser fazer, a fim de habilitar-se à premiação oferecida.
Esses editais, depois que tomei contato com o “Fórum”, chegam-me sempre através de e-mails genéricos, mas, considerando-se minha natural rejeição a concursos – por não demonstrar interesse pela coisa – vejo-me, “a posteriori”, “re-convidado” com ênfase maior, sendo que, então, já de forma mais pessoal (por telefone). Porém, invariavelmente, isso só se dá no último momento das inscrições. E aí, se empurrado pelas armadilhas do ego eu caio na criancice de aceitar, como fiz, no último dia do Prêmio-2009, sob a modalidade “cidadania”, passo imediatamente a ser ignorado, sendo que, como agravante, os agentes locais indicados para receber o nosso calhamaço de material, especialmente a Casa da Cultura de Belford Roxo, sempre sob a égide do “não sei de nada”, sequer tem um recibo ou número de protocolo para oferecer, o que se configura como mais um substancial objeto de suspeição.
Portanto, para os artistas menores como eu, pouco importantes, talvez, para o Fórum Cultural e respectivo Prêmio Baixada, não há como saber – sequer – se aquele nosso material foi recebido por quem de direito, ou mesmo se a nossa inscrição foi efetivamente feita, porque ali, ao que tudo indica, depois que se “laça” e empurra o boi para o rio, ninguém lhe revela que ele se destinava a ser – meramente – a necessária comidinha das piranhas, para que os espécimes preferidos pelos “feitores”, dentre a manada, possam atravessar a correnteza com segurança. Faz-se, portanto, depois que nosso nome se vê agenciado para posteriores efeitos estatísticos, um silêncio sepulcral , tanto nas mídias quanto nas línguas profícuas dos agenciadores do contingente artístico.
Isto, a meu ver, chama-se, no mínimo, desorganização, considerando-se que inscrição pressupõe, em qualquer âmbito da atividade humana, um número de recibo, uma resposta de efetivação ou um – atípico que seja – protocolo de entrega do material exigido pelos organizadores.
Porquanto, não há como não se inferir, tristemente, que o principal objetivo dos enfáticos convites de última hora se baseia na mera intenção de fazer número para uma meta de inscrições que não fora alcançada até o último minuto.
Pois, “bucha de canhão”, portanto, é outro dos jocosos nomes populares que se dá àqueles que entram ou são ordenhados – feito gado – apenas para fazer número e oferecer respaldo às intenções quantitativas de um evento.
E aqui vai mais uma frustrante e inconformada decepção – não só minha, mas, certamente, de um vasto segmento artístico da Baixada Fluminense: a pomposa relação dos agraciados nas diversas modalidades do Prêmio Baixada–2008 (ano passado) se encontra – desde a imediata posterioridade do fato – disponível e bem apregoada no ‘site’ do “Fórum”, mas a outra lista, que se refere à posterior e última edição de 2009 (VIII), ocorrida no dia 27/08/2009, no Município de Seropédica, estranhamente, jamais foi disponibilizada. Por quê?... Teriam os ilustres dirigentes do Fórum Cultural da Baixada Fluminense e organizadores do “Prêmio Baixada”, algo de ridículo, de estranho ou, no mínimo, de inadequado a confessar??? Por que essa capciosa lista, se é que existe, não foi para o ‘site’, juntamente com as “fotos do evento”, que, devida e cautelosamente selecionadas para divulgação, também só vieram tardiamente a público no mês de novembro?
Em tese, eu também me inscrevi, como já disse; mas, em virtude de um arrependimento eficaz e temporâneo, não estava lá! Entretanto, disseram-me que houve, no dia da malfadada entrega, uma tal insatisfação dentre alguns presentes que quase os levou as vias de fato. Tudo, principalmente, por conta de um inconformismo diante dos nomes escolhidos para a premiação. Tal inconformismo, diga-se de passagem, parece que já vem desde o ano de 2007, quando a modalidade “literatura” foi conferida a um “poeta” de São João de Meriti que, há décadas (descobriu-se há pouco) vinha plagiando, publicando e se apropriando de textos alheios. O Fórum, à época, talvez ainda não tivesse provas das falcatruas do tal premiado, mas as evidências de sua conduta já saltavam aos olhos até para o mais inexperiente amante ou pesquisador de poesia, porque ninguém escreve, em ritmo de continuidade, ora um texto medíocre e sulapado de impropriedades lingüísticas e gramaticais, e ora outro, absolutamente técnico, polido e apreciável.
No mundo da poesia – embora cada qual tenha o seu valor peculiar – não há homogeneidade tão incoerente: ou se é libélula ou se é rinoceronte, sendo que um plagiador, por sua vez – um estranho elemento que nem é poeta – não seria nenhum dos dois.
Por conseqüência, embora as sansões previstas para o plágio se concentrem na esfera Cível, um plagiador, transmudando-se para o âmbito da moralidade, não passa de um ladrão como outro qualquer, porque se apropria, igualmente, de um bem alheio. Então, premiá-lo, longe de significar estímulo e promoção cultural, nada mais é que um imperdoável desrespeito para com os verdadeiros criadores; e mesmo quando a sua premiação se dá sob o pálio da boa fé e do desconhecimento – o que parece ter sido o caso – sempre se torna premente, a bem da lisura e da ética, o devido ato de cassação do prêmio, logo que tal impropriedade se prove ou evidencie, coisa que, paradoxalmente e ao que parece, também nunca foi cogitada pelo Fórum Cultural da Baixada Fluminense.
E frise-se aqui, como corolário da aludida suspeita de um grupamento fechado dos agraciados pelo Prêmio, que o plagiador em questão, segundo dizem, sempre foi pessoa de íntimo relacionamento com alguns dos mais eminentes e poderosos mentores do “Fórum” e do “prêmio”.
Eu, como já disse, não sei a exata extensão da verdade, mas que ela existe, existe! Não fosse assim, o Fórum não esconderia a lista dos nobres agraciados pelo seu último “grande prêmio”.
Não me proponho aqui, meramente a denegrir organismos nem a injustiçar ninguém, mas, até que alguém me prove o contrário, digo que algo de mau-cheiroso parece ocorrer no principado do “Prêmio-Baixada”, bem como enfatizo, que a arte – mesmo não sendo comida – também é um produto de primeira necessidade, porque se imbui do teor e da prerrogativa de lapidar a alma, o caráter e a essencialidade dos homens; e o artista, por sua vez, não pode ser tratado como um número de complementação das metas dos organizadores de eventos, sendo que um prêmio, como o próprio nome o sugere, tem que ser conferido a quem o merece, e não aos meros parceiros de “buraco” de quem quer que seja, ou àqueles que apenas compactuam com a mesma política deste ou daquele poderoso cacique.
Eu, que já amarguei a calhorda incidência de um plágio sobre minha criação seguida de uma despótica e injusta decisão judicial, se ora repudio, tanto os ladrões da imaterialidade quanto seus protetores, que se movem pela conivência ou pela omissão, é porque, de certa maneira, eu também vivo para a arte, porque ela é um dos meus tantos ideais, mas, felizmente, nessa macabra dança das cadeiras que é o mundo artístico, eu não vivo dela. Assim, deixo ao alvedrio dos ilustres senhores do “conselho”, caso minhas modestas observações sejam capazes de ferir sua duvidosa sensibilidade, que me esqueçam, se quiserem fazê-lo, mas, por favor: que respeitem um pouco mais as tantas e tantas admiráveis expressões fidedignas da produção e da promoção cultural da nossa terra.
Mailton Rangel
Poeta da Baixada Fluminense
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Homogênese
Em 29/11/2010, dentre 426 poemas incritos, este angariou o prêmio de 2º colocado no "IX Concurso de Poesia da Cidade de Duque de Caxias - RJ.".
HOMOGÊNESE
Abram alas, ó gente minha,
Que a morte exige passagem;
E almeja pôr na bagagem
Este poeta mais uma andorinha,
Dois bispos,
Três onças pretas,
Quatro ladrões,
Cinco atletas;
Seis crias recém-paridas,
Sete peixes,
Quatorze magistrados,
Vinte dois idealistas,
Cento e setenta e um empresários,
Oitenta senadores de república,
Trezentos e quarenta e nove negrinhos sem pastoreio...
E uma vaca sagrada de “Krishna”.
Há de juntá-los em um só balaio,
Onde, em razão do espremido,
Não há olhar de soslaio,
Não há mugido arrogante,
Tampouco, as pompas altivas,
Nem divas,
Nem raparigas,
Sequer, senhor ou lacaio;
E em despojo, n’ante-sala,
Virá, da mistura, um cheiro
De cão perdigueiro e barro,
Com o pó-de-broca e escarro,
De alcatras virando adubo....
E pr’alguns que se escapolem,
Julgando-se ora seguros...
Assim como quem não quer nada,
Dentre as vísceras pastosas,
Pavorosa que só ela...
Ei-la, que surge equipada,
Ardilosa,
Cavernosa,
Grotesca
E dissimulada;
Porque a danada é ferenha,
E se é ferrenha...quer tudo!
E com o seu tubo estreito e forte
E afunilado...
E sem graça...
Que aspira recrudescente,
Sem cotejar cor ou raça,
Esganada, ela devora
Qualquer fauna que se aflora,
E a flora que mal se arvora...
Sendo que, depois do abraço,
Branco ou preto viram cinza,
Qualquer sangue irriga um pasto,
Todo orgulho ao pó retorna!
No entanto, passaria,
Sem fobia e com vantagem,
Quem fez as dietas certas
Das gorduras do caráter,
Pois o filtro afunilado...
– Vejam só, que amor-talhado!
Só permite que almas finas
Transpassem pr’um melhor lado.
Abram alas, minha gente:
Eis que a morte se aproxima;
Minha ânima me anima,
Mas a voz soa cansada;
E se ao fim da vã jornada,
Sem bússola,
Sem candeeiro,
Aos suspiros derradeiros,
Dou-me em seiva aos bons canteiros...
– Eis-me trigo enriquecido,
– Eis-me centeio macerado;
– Eis-me essencializado,
– Eis-me, em verso, terminado.
(Mailton Rangel)
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segunda-feira, 21 de setembro de 2009
ASAS DE POETA
Eu, ainda voluntariamente preso naquele menino emotivo que nunca deixarei de ser, sinto-me um simples homem que aprendeu muitas coisas na vida, mas não de forma fácil, porque quase sempre houve a obstinada aplicação de uma vontade férrea, tendo em vista que as minhas conquistas, na maioria dos casos, chegaram-me sob o implacável açoite de um intenso sofrimento.
No entanto, o lado gratificante dessa forma dura de conquistar consiste no fato de que somente o aprendizado – enquanto o mais verdadeiro de todos os tesouros – é que em mim permanece, porque as feridas das conquistas, devidamente cicatrizadas pelo tempo, já não me causam mais dor alguma, e sim, um sabor de vitória muito mais maduro e consubstanciado.
E a conjuntura dessa caminhada, por consequência, leva-me a discordar de um velho adágio: a roupa não faz o monge coisíssima nenhuma, quem o faz é o tempo, enquanto elemento sedimentador de toda a sabedoria para aqueles que a procuram, mas que, concomitantemente, também se dedicam continuamente ao exercício de extraí-la de cada pedra com a qual se venham esbarrando pelo seu caminho.
Porquanto, pelo fato de ter precocemente incluído a busca de uma essencialidade entre os meus ideais, creio que hoje, em termos de auto-aceitação, visão de mundo e senso de real liberdade, tenho muito mais do que mereço, embora também perceba a miríade de coisas que ainda me faltam; não exatamente para conquistar ou aprender, mas, principalmente, ver acontecer nos meandros da minha convivência, para que a minha modesta e inexplicável felicidade se continue tornando cada vez mais completa.
Sem dúvida alguma, eu já aprendi bastante. Entretanto, vejo que uma vasta gama dos atributos desse aprendizado – enquanto trancados dentro de mim ou servindo só aos meus propósitos – não encantam a quase ninguém nesta nossa sociedade contemporânea tão desprovida de sonhos e de ideais altruístas. Por isso, escolho aqui, para me orgulhar precipuamente, dentre as habilidades e até utopias que povoam o meu íntimo, só a minha modesta condição de poeta idealista.
Jamais quero desistir de lutar por um mundo melhor, mais ético, mais humanizado... Porém, tenho a mais plena consciência de que esse mundo que eu me proponho a mudar começa dentro de mim; e é nisso que ainda me reside uma inconformada frustração: o ser humano moderno, salvo inúmeras exceções, é um animal de índole um tanto parecida com a das najas indianas; não que ele seja genuinamente peçonhento ou que esteja sempre pronto para trair...Não, não!... Longe de mim tal comparação. O que quero dizer é que as pessoas só se enlevarão ao som suave e divino de uma simples flauta, e somente aceitarão mudar suas voluptuosas condutas, adotando uma postura mais pacífica em relação aos demais... pela assimilação de um novo sopro sonoro de vida.
A flauta não precisa ser de ouro nem de prata, mas sim, ser tocada com a emoção certa, porque mágica é a música, e não o instrumento, sendo que, no entanto, essa mágica também jamais se materializaria sem o sopro seguro e positivo de um bom encantador. Logo, se o milagre capaz de mudar o meu mundo começa comigo, sou eu que preciso aprender a soprar as notas corretas na flauta dos meus exemplos; sou eu que preciso aprender a encantar os que comigo convivem, porque, eles, depois que aprenderem a doçura do som que os encantou, trocarão indubitavelmente o seu guiso ou as suas assustadoras abas de ataque por essa nova e encantadora maneira de abordar aqueles que os cercam.
Pois eu lhes digo: enquanto poeta, eu sei que já possuo uma divinizada flautinha de junco, capaz de começar a encantar o meu mundo. Ninguém a vê, porque, além da natural insegurança dos que não podem errar na execução da música, esse instrumento precisa, em primeiro plano – para que seu maravilhante som surta o efeito que dele se espera – ser retirado do seu recôndito estojo... e ser empunhado e, em seguida, ser delicadamente colocado ao alvitre da boca preparada que emana da alma mansa, com toda a segurança, com toda a fé, com todo o otimismo.
SER
O som da flauta é divino,
Mas precisa sempre de um sopro humano
Para se manifestar!
(POEMADURO, Pg. 21)
Mailton Rangel